É completamente estranho que algo – qualquer coisa – esteja acontecendo. Não existia nada, de repente, um Big Bang, e aqui estamos todos nós. Isto é extremamente esquisito. Sempre houve duas respostas gerais para a ardente pergunta de Schelling: “Por que existe algo em vez de nada?”…


Resenha do livro Sexo, Ecologia e Espiritualidade
Livro de Ken Wilber | Tradução Ari Raynsford
Publicada na revista Filosofia, Ciência & Vida, Ano XIII, nº 151.

É completamente estranho que algo – qualquer coisa – esteja acontecendo. Não existia nada, de repente, um Big Bang, e aqui estamos todos nós. Isto é extremamente esquisito.

Sempre houve duas respostas gerais para a ardente pergunta de Schelling: “Por que existe algo em vez de nada?” A primeira poderia ser chamada de filosofia do “opa”. O universo simplesmente acontece; não existe nada por trás; ele é, no final das contas, acidental ou fortuito; basicamente, ocorre – opa! A filosofia do opa, não importa quão sofisticada e madura possa, às vezes, parecer – seus nomes e números modernos vão do positivismo ao materialismo científico, da análise linguística ao materialismo histórico, do empirismo ao naturalismo – sempre chega à mesma resposta básica: “não pergunte”.

A pergunta em si (Por que algo está acontecendo? Por que eu estou aqui?) – a pergunta em si é considerada confusa, patológica, absurda ou infantil. Parar de fazer tais perguntas tolas ou obscuras é, afirmam, um sinal de maturidade, um indício de crescimento neste cosmos.

Eu não penso assim. Acho que a “resposta” dada por essas disciplinas “modernas e maduras” – isto é, opa! (e, portanto, “não pergunte!”) – é, possivelmente, a mais infantil que a condição humana pode oferecer.

A outra resposta geral que tem sido proposta é que alguma outra coisa está ocorrendo: por trás do drama casual há um padrão, ordem ou inteligência mais profunda, mais elevada ou mais ampla. Existem, claro, muitas variedades dessa “ordem mais profunda”: o Tao, Deus, Ceist, Maat, formas arquetípicas, razão, Li, Mahamaya, Brahman, Rigpa. E, embora essas inúmeras variações da ordem mais profunda discordem entre si em muitos pontos, todas elas concordam em um: o universo não é o que parece. Alguma outra coisa está ocorrendo, algo bastante diferente de opa…

Metaforicamente, Ken Wilber trata da evolução como sendo o “espírito em ação”. Espírito no sentido de Deus, porque, de acordo com sua visão, tudo o que existe no universo é uma manifestação do divino.

Este livro é sobre “tudo diferente de opa”.

Assim o autor começa sua obra monumental.

Ken Wilber, polímata, filósofo e místico norte–americano, desenvolveu a metateoria integral, que tem como um de seus propósitos procurar enfrentar os problemas atuais da humanidade usando diferentes perspectivas, partindo do princípio de que cada uma dessas perspectivas apresenta uma verdade parcial que precisa ser levada em conta na resolução do problema. Foi através de Sexo, ecologia, espiritualidade (SEE) que Wilber apresentou ao mundo pela primeira vez sua metateoria.

Para tanto, Wilber estudou inúmeras áreas do conhecimento humano, tais como: ciências físicas e biológicas, ecociências e sustentabilidade, teoria do caos, ciências sistémicas e da complexidade, política, economia, sociologia, negócios, filosofia ocidental e oriental, psicologia, matemática, antropologia, mitologia, escolas contemplativas e místicas ocidentais e orientais, artes, entre outras, criando uma estrutura que integra as verdades parciais de cada uma delas, a saber, a metateoria integral.

Sexo, ecologia, espiritualidade trata, em essência, da evolução, o que é expresso em seu subtítulo “O espírito da evolução”. O livro é dividido em duas partes, sendo que a primeira mostra como essa evolução se deu, ou está se dando, ao longo desses 15 bilhões de anos, desde o Big Bang até os dias atuais, em todos os domínios: matéria, vida, mente e espírito.

Na primeira parte, Wilber nos propõe uma descrição do processo evolutivo embasada em conhecimentos científicos, filosóficos e das tradições de sabedoria. São oito capítulos que tratam da teia da vida e suas limitações, dos princípios básicos que regem a evolução, da evolução exterior individual e-coletiva, da evolução interior individual e coletiva, da evolução da consciência humana, das fronteiras da natureza humana e dos domínios transpessoais.

A segunda parte do livro trata especi-ficamcnte das coisas que, de uma certa maneira, deram errado, principalmente nos períodos moderno e pós-moderno, e de como nós podemos redirecionar a evolução para novos caminhos que levem a uma melhoria da situação do planeta, enfocando problemas éticos, culturais, económicos, sociais, ecológicos e espirituais contemporâneos. São seis capítulos que tratam dos caminhos ascendente e descendente, do deus ou deusa das diferentes tradições, da dignidade e do desastre da modernidade e dos acertos e erros da pós-modernidade.

Há também as notas de cada capítulo; na verdade, elas podem ser consideradas como um livro separado. Muitas das ideias mais importantes de Sexo, ecologia, espiritualidade são mencionadas e desenvolvidas somente nas notas (por exemplo, a intuição moral básica), bem como em grande parte do diálogo com diversos eruditos (Heidegger, Foucault, Derrida, Habermas, Parmênides, Fichte, Hegel, Whitehead, Husserl) e com teorizado-res alternativos atuais (Grof, Tarnas, Berman, Spretnak, Roszak).

Metaforicamente, Ken Wilber trata da evolução como sendo o ‘espírito em ação”. Espírito no sentido de Deus, porque, de acordo com sua visão, tudo o que existe no universo é uma manifestação do divino; a criação divina (in-voluçáo) nada mais seria do que Deus se esquecendo de si mesmo – o nível material é Deus mais esquecido de si. A evolução – o espírito em ação – é o processo de rememoração de Deus, partindo da matéria para a vida, para a mente, para a alma, para o espírito. Essa visão não dualista tem como essência que a evolução é o retorno das manifestações divinas (o Deus imanente) ao Deus transcendente, de tal maneira que, ao final (se é que esse final existe) nós chegaremos à realização de que só há Deus, de que só há o espírito.

Minha experiência na tradução desta obra foi inefável. Mais do que uma tradução, foi um profundo mergulho em domínios totalmente desconhecidos para mim. Foram quatro anos em que viajei por mundos maravilhosos. E corroborando as palavras do próprio Ken: foi ‘uma viagem e tanto.

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