Baseado na tradição do Budismo Tibetano e, mais especificamente, no Livro Tibetanos dos Mortos, Wilber descreve o processo de morrer (e de renascer), bem como mostra como a meditação pode nos ajudar nesse processo.


Morte, Renascimento e Meditação
Ken Wilber | Tradução Ari Raynford

Praticamente em todas as tradições religiosas místicas pelo mundo afora se acha presente algum tipo de doutrina de reencarnação. O próprio Cristianismo a admitia até por volta do século IV d.C., quando por motivos em grande parte políticos, recaiu sobre ela o anátema. Não obstante, muitos místicos cristãos aceitam hoje essa ideia. Como salientou o teólogo cristão John Hick em sua importante obra Death and Eternal Life (Morte e Vida Eterna), todas as religiões do mundo, inclusive o Cristianismo, estão de acordo quanto à ocorrência de algum tipo de reencarnação.

Por certo, o fato de muitas pessoas acreditarem em alguma coisa não faz com que ela seja verdadeira. E é muito difícil sustentar a ideia da reencarnação apelando para “evidências” que assumem a forma de alegadas lembranças de uma vida passada, pois na maioria dos casos pode-se demonstrar que essas lembranças não passam de revivescências de traços de uma memória subconsciente oriundas desta vida.

No entanto, o problema não é tão sério quanto poderia a princípio parecer, pois a doutrina da reencarnação, tal como é apresentada pelas grandes tradições místicas, é uma noção bastante específica: ela não significa que a mente viaja ao longo de vidas sucessivas e que, por conseguinte, em condições especiais – por exemplo, sob hipnose – a mente pode recordar todas as suas vidas passadas. Ao contrário, é a alma, e não a mente, que transmigra. Portanto, o fato de não se poder provar a reencarnação fazendo-se apelo às lembranças de vidas passadas é exatamente o que se poderia esperar: lembranças específicas, ideias, conhecimentos, etc. pertencem à mente e, em geral, não transmigram. Tudo isto é deixado para trás, juntamente com o corpo, por ocasião da morte. (Talvez algumas poucas lembranças específicas consigam se insinuar de vez em quando, como sugerem casos registrados pelo Professor Ian Stevenson e outros, mas esses casos constituiriam antes a exceção que a regra.) O que transmigra é a alma, e esta não é um conjunto de lembranças, ideias ou crenças.

De acordo com a maioria dos ramos da filosofia perene, a alma possui duas características básicas que a definem: primeira, ela é o repositório das “virtudes” do indivíduo (ou da falta das mesmas) – isto é, de seu carma, ao mesmo tempo bom e ruim; segunda, ela é a “força” da percepção de uma pessoa, ou a capacidade que o indivíduo possui de “testemunhar” o mundo dos fenômenos sem nenhum apego ou aversão. Esta segunda capacidade é também conhecida como “sabedoria”. A acumulação de ambas – virtude e sabedoria – constitui a alma, que é a única coisa que transmigra. Desse modo, quando as pessoas afirmam que se “lembram” de uma vida passada – onde viveram, qual era seu meio de vida, e assim por diante – essas pessoas, de acordo com qualquer religião importante ou em qualquer ramo da filosofia perene, não estão se lembrando de nenhuma existência passada real. Somente os budas (ou tulkus), segundo se diz, conseguem lembrar-se de vidas passadas – constituem eles a exceção à regra. Até mesmo o Dalai Lama disse que não consegue se lembrar de suas vidas passadas, o que talvez devesse servir de lembrete para aqueles que pensam que podem.

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