Veja como Ken Wilber aborda de maneira esclarecedora o assunto controverso sobre dinheiro e espiritualidade, um tema que, ainda hoje, causa extraordinária ambivalência, culpa e confusão, em relação à ideia de que ensinamentos espirituais e dinheiro jamais deveriam cruzar seus caminhos.


Grana Justa – Dinheiro e Espiritualidade
Ken Wilber

O Dharma é livre. Ninguém deve cobrar dinheiro por ensinar ou transmitir o Dharma. O Dharma que toca o dinheiro não é um Dharma. A raiz de todo o mal está em vender o Dharma. No Dharma oferecido gratuitamente a todos os que o procuram, há pureza, nobreza e disposição honrosa.

E assim vai o estranho antagonismo entre Dharma e dólares. Ao lidar com essa questão de dinheiro e Dharma — ou dinheiro e espiritualidade em geral — existem, pelo menos, dois itens muito diferentes que precisam ser separados e abordados isoladamente. O primeiro é o valor monetário apropriado de qualquer troca relacional (de cuidados médicos a educação, bens e serviços em geral); e o segundo é se a troca monetária deveria estar relacionada ao ensino do Dharma.

“Nós ainda vemos uma extraordinária ambivalência, culpa e nojo, em relação à ideia de que Dharma e dinheiro jamais deveriam cruzar seus caminhos. E isso é profundamente confuso.” Ken Wilber

Vamos tratar a última questão, a questão difícil, em primeiro lugar. Os primeiros grandes sistemas do Dharma, no Oriente e Ocidente, surgiram todos, sem exceção, no chamado “período axial” (Karl Jaspers), aquele período bastante extraordinário que começou por volta do século VI a.C. (mais ou menos alguns séculos), um período que viu o nascimento de Gautama Buda, Lao Tsé, Confúcio, Moisés, Platão, Patanjali — um período que logo cederia, nos séculos seguintes, para incluir Ashvaghosa, Nagarjuna, Plotinus, Jesus, Filo, Valentino, etc. Praticamente todos os principais dogmas da filosofia perene foram estabelecidos pela primeira vez durante esta época surpreendente (no budismo, hinduísmo, taoísmo, judaísmo, cristianismo, etc).

E em cada um desses casos, sem exceção, a civilização em que esses professores surgiram era uma cultura agrária.

Cultura e estruturas sociais

Culturas (e estruturas sociais) podem ser divididas e categorizadas de várias maneiras. Um caminho é lidar com esta questão de acordo com a visão de mundo predominante da cultura (arcaica, mágica, mítica, mental, existencial) — o que significa o nível de consciência alcançado pelo indivíduo médio ou típico nessas sociedades (o que forma a “visão oficial” de realidade dessa sociedade, ou seja, sua visão de mundo).

Outro caminho relaciona-se com a base tecno-econômica correspondente da sociedade (forrageamento, horticultura, agrária, industrial, informacional) — que se refere aos meios básicos de produção que a sociedade usa para se alimentar e se vestir, e ainda para gerenciar suas necessidades básicas (as cinco principais visões de mundo estão correlacionadas com as cinco principais bases tecno-econômicas; elas surgiram juntas e se determinam mutuamente).

Forragear significa caçar e colher (a maioria dessas sociedades existiu no período anterior à invenção da roda; vida média de 22,5 anos; tamanho médio máximo da tribo: 40 pessoas; a ideia dos ecologistas profundos: todos os verdadeiros homens podiam caçar, todas as mulheres colhiam frutos). Esta foi a principal forma das sociedades humanas por talvez um milhão de anos.

Horticultura significa plantio simples (geralmente feito com uma enxada ou vara de escavação), método que foi introduzido por volta de 10.000 a.C. As mulheres produziam a maioria dos alimentos nas sociedades hortícolas (até as mulheres grávidas podiam usar uma vara de escavação e a moradia ficava ao lado do local de trabalho, por isso as mulheres não eram prejudicadas pela maternidade; as mulheres produziam cerca de 80% dos alimentos nessas sociedades); os homens, é claro, continuaram a perambular, a manter os vínculos masculinos e caçar, seguindo os principais impulsos da testosterona: foda ou mate). Devido à importância das mulheres na produção de subsistência, cerca de 1/3 dessas sociedades tinham apenas divindades femininas (o “matriarcado”, a “grande mãe”); cerca de 1/3 tinham divindades masculinas e femininas misturadas. Duração média de vida: cerca de 25 anos. Principal ritual religioso: sacrifício humano. (Onde os eco-masculinistas amam sociedades de forrageamento, os eco-feministas amam as sociedades hortícolas, sua ideia de paraíso; nós amamos as velhas varas de escavação).

Agrário significa agricultura avançada usando várias formas de arados puxados por animais. Onde uma vara de escavação pode facilmente ser manuseada por uma mulher grávida, um arado não pode, e as mulheres que tentavam fazê-lo sofriam taxas significativamente mais altas de aborto espontâneo (é a vantagem darwiniana de não arar). E assim, com a introdução do arado, a cultura iniciava uma mudança massiva, absolutamente massiva].

O grande ‘não-não’

“Dinheiro, comida, sexo. O grande ‘não-não’ está nas tradições de sabedoria puramente ascendentes, agrárias e masculinas.” Ken Wilber

Primeiro, virtualmente todos os alimentos eram, então, produzidos apenas por homens (os homens não queriam fazer isso, e não “tiravam” ou “oprimiam” a força de trabalho feminina a fim de fazê-lo; tanto homens quanto mulheres decidiram que o arado pesado era trabalho masculino, para os homens; isso certamente não era um dia na praia, e não era nem de longe tão divertido quanto a caça de grandes animais, da qual os homens, em grande parte, precisaram desistir).

Mas quando os homens começaram a ser virtualmente os únicos produtores de alimentos, então não é de surpreender — as figuras das divindades nessas culturas mudaram de orientadas para mulheres para quase exclusivamente figuras masculinas. Surpreendentes 97% das sociedades agrárias, onde quer que apareçam, têm apenas divindades masculinas (o “patriarcado”). Os homens começaram a dominar a esfera pública (governo, educação, religião, política) e as mulheres dominavam a esfera privada (família, a casa, o lar; essa divisão é muitas vezes referida como produção masculina e reprodução feminina). As sociedades agrárias começaram a surgir em torno de 4.000-2.000 a.C., tanto no Oriente como no Ocidente, e esse foi o modo dominante de produção até a revolução industrial.

Em segundo lugar, a agricultura avançada criou um excedente maciço de alimentos, e isso liberou um grande número de indivíduos (homens) para realizar tarefas além da coleta de alimentos e do cultivo de alimentos (a tecnologia agrícola libertou alguns homens da produção, mas as mulheres ainda estavam ligadas à reprodução). Isso permitiu, pela primeira vez na história, surgir uma série de classes altamente especializadas: homens que podiam dedicar seu tempo não aos esforços de subsistência, mas a empreendimentos culturais; a matemática foi inventada, a escrita foi inventada e a guerra foi especializada. A produção de um excedente libertou homens (sob o domínio da parte “matadora” da testosterona) para começar a construir os primeiros grandes impérios militares; e em todo o mundo, começando por volta de 3.000 aC, vieram os Alexandres e Césares e Sargons e Kahns: maciços impérios, paradoxalmente, tribos desiguais e contenciosas começaram a se unificar em ordens sociais vinculantes. Esses impérios mítico-imperiais iriam, com a ascensão da racionalidade e industrialização, dar lugar ao estado-nação moderno.

Terceiro, uma classe de indivíduos seria libertada para ponderar sua própria existência. E assim, com essas grandes culturas agrárias, vieram os primeiros esforços contemplativos sustentados, esforços que não mais localizavam o Espírito meramente na biosfera “lá fora” (mágico, forrageando, caçando e coletando), e não meramente no céu mítico “lá em cima” (mitologia, horticultura a primitiva agrária), mas sim o Espírito localizado “aqui”, pela porta da profunda subjetividade, a porta da consciência interior, a porta da contemplação.

E assim surgiram os grandes sábios axiais, cuja mensagem em toda parte era virtualmente idêntica: “O Reino dos Céus está dentro”. Isso tudo era decisivamente, radicalmente novo…

Além disso, essa inovadora nova espiritualidade era toda uma forma particular, que é melhor descrita como “puramente ascendente”. Isto é, todo o mundo manifesto era visto, basicamente, como o mal. O mundo manifesto é o mundo do samsara, do sofrimento, da ilusão, da tentação, do mal, da dor. E a meta principal da realização espiritual é, portanto, descobrir que o Reino dos Céus “não é deste mundo”. A realização espiritual envolve, portanto, a extinção da manifestação (samsara) no imanifesto, não nascido, incriado (nirvana) — e tudo no mundo manifesto que é tentador, é, portanto, “pecado” (embora gerado).

E isso significava, sem exceção, que os grandes pecados eram ouro (dinheiro) e sexo (mulheres). A comida era muitas vezes incluída nessa trindade profana; a ideia era que, se você estivesse realmente obcecado ou com fome de comida, você estava com fome de samsara e de seu sofrimento.

Dinheiro, comida, sexo. O grande “não-não” está nas tradições de sabedoria puramente ascendentes, agrárias e masculinas. Não é por acaso que a segunda nobre verdade do Buda — a causa do sofrimento é o desejo — significa especificamente desejo sexual; e isso representava, claro, mulheres. “Eva” (seja qual for o nome dela), a grande sedutora, estava em toda parte, até mesmo na grande fonte do mal.

O dinheiro não era menos problemático. Provavelmente, o fato de Cristo dirigir-se aos mercadores do Templo era algo bom; mas mais do que isso, era emblemático de todo o tom ascendente dos primeiros grandes sistemas do Dharma — a manifestação é suja, a manifestação é má e o Ascendente Masculino simplesmente não deveria transitar pelo dinheiro, pela comida, pelo sexo. Tudo isso o rouba do seu poder vital: o poder de sair da roda, de sair do jogo e de permanecer na extinção, no imanifesto, no incriado, no não nascido.

As sociedades agrárias apoiavam universalmente o homem ascendente, e os monges errantes, iogues, sanyasins, mendicantes, eram todos apoiados unicamente pelas esmolas e doações dos fiéis. O Dharma era puro; o Dharma estava limpo; o Dharma não tocaria o samsara, não tocaria (ou pelo menos não gozaria com) dinheiro, comida, sexo (ou mulheres).

E acima de tudo, o Dharma não cobraria dinheiro pela sua disseminação. Isso seria, na verdade, um trato com o diabo, com Mara, com a manifestação.

E assim, sem exceção, essas antigas tradições do Dharma, do Oriente e do Ocidente, foram (e ainda são) marcadas pelo desdém pelo dinheiro, pela comida, pelo sexo e pelas mulheres; e a ética desses sistemas agrários e ascendentes foi concebida, de uma maneira ou de outra, para evitar e renunciar a todos esses males. (Tudo o que podemos caridosamente supor é que isso foi praticamente inevitável nas circunstâncias da organização social agrária.)

Nirvana e o samsara não são dois

E tudo isso mudaria dramaticamente com dois desenvolvimentos extraordinários. O primeiro foi o surgimento dos sistemas não duais (tanto no Oriente quanto no Ocidente); e o segundo foi a industrialização (no Ocidente, mas com implicações globais de longo alcance).

A revolução não dualista, introduzida no Ocidente pelo brilhante Plotino e no Oriente pelo notável Nagarjuna, tinha um princípio básico: o mundo manifesto do samsara não é um impedimento para o Espírito, mas sim a expressão perfeita do Espírito: o samsara e o nirvana são “não dois”. Vazio é Forma, Forma é Vazio.

A revolução trazida por Plotino e Nagarjuna é da mesma forma: Plotino ataca os gnósticos meramente ascendentes (que ensinavam que o reino manifesto era o mal encarnado) com uma crítica devastadora que dizia, com efeito, uma vez que este mundo manifesto é realmente a criação e expressão do Espírito, então como você pode desprezar este mundo e dizer que ama o Espírito? Se você ama os pais, como você pode odiar os filhos? Plotino, com efeito, acusa os gnósticos e os meros ascendentes de um abuso espiritual infantil brutal. A plena realização espiritual deve ser encontrada no perfeito abraço não mundano deste mundo, não em fugir deste mundo para o não manifesto.

Que é precisamente o ataque devastador que Nagarjuna desencadeia sobre os budistas Theravadas. Seu nirvana, ele aponta, é centralmente dualista — nirvana versus samsara, o Uno versus o Muitos, o infinito versus o finito, o não manifesto versus o manifesto — e isso não traz libertação, mas escravidão sutil. A revolução Madhyamika de Nagarjuna daria origem diretamente a todas as formas do Budismo Mahayana, Budismo Vajrayana, várias formas de Tantra e — através de sua influência em Gaudapa e Shankara — ao Hinduísmo Vedanta, tudo isso a partir do não dualismo completo de Nagarjuna.

A essência da tradição não dualista (tanto em Plotino quanto em Nagarjuna) é que os caminhos ascendentes são corretos, mas extremamente parciais. Além de uma pura Ascensão ao Vazio e ao Um [Unidade], há a descida perfeita do Um para o Muitos [Diversidade]. Não apenas pura transcendência, mas também perfeita imanência. Todo o mundo manifesto é uma expressão perfeita do esplendor do solo vazio. E a Ascensão ao Imanifesto, não nascido e incriado, deve ser unida e integrada com a Descida do Um entre os Muitos.

Assim, o caminho da Ascensão é o Caminho da Sabedoria (que vê que toda a Forma é Vazia); e o caminho da Descida é o caminho da Compaixão (que vê que o Vazio se manifesta como toda Forma, a qual deve ser tratada com amor e compaixão). O Eros Ascendente de Deus tem que ser unido com o Ágape Descendente da Deusa: a união da Sabedoria e Compaixão, o Um e o Muitos, o Ascendente e o Descendente: esta união era a essência das tradições Não Duais (exemplificadas graficamente no Tantra), com macho e fêmea, eros e ágape, sabedoria ascendente e compaixão descendente, unidos em abraço sexual: bem agora, isso era totalmente novo!)

Consequentemente, esta orientação não dualista envolveu uma profunda reavaliação da natureza “pecaminosa” do samsara, e especialmente da natureza “pecaminosa” do dinheiro, comida, sexo (e mulheres). O que os Caminhos Ascendentes consideravam como principais distrações do Espírito, agora eram vistos como manifestações primárias e gloriosas do Espírito. “Esta terra e tudo nela”, diz Plotino, “torna-se um ser abençoado”.

“O nirvana e o samsara não são dois; e assim nunca se poderia encontrar o nirvana fugindo do samsara. Isso seria como tentar encontrar sua frente fugindo de suas costas.” Ken Wilber

As tradições não duais começaram um conselho, não de renúncia e purificação (meramente Ascendente), mas de transformação e transmutação: os cinco venenos são um com as cinco sabedorias (por exemplo, alguém experimenta a raiva com a percepção do Vazio para descobrir, em sua raiz, a sabedoria da clareza). As impurezas, exatamente como são, são expressões da consciência primordial e, portanto, não são renunciadas, mas são autoliberadas, assim como são, em sua própria pureza primordial. O samsara não é mais a principal obstrução ao Espírito, é a exibição perfeita da atividade criativa e compassiva do Espírito, e deve ser tratado como tal.

Esse caminho não dual, é claro, está aberto a suas próprias armadilhas (que são inúmeras), mas a reorientação básica é óbvia: não é mais uma questão, por exemplo, de abstinência sexual, mas de sexualidade apropriada como expressão espiritual. E não mais a mulher como o mal, mas a mulher como manifestação coigual do Divino. E não mais uma postura geral anticomida, ou uma cruzada religiosa anticomida: até mesmo carne, álcool e outros “intocáveis” eram inteiramente apropriados se experienciados com a consciência do vazio (e eles eram ritualmente usados ​​apenas naquela época, como uma indicação de que todos os aspectos do samsara eram uma expressão do Divino e, portanto, não devem ser desprezados). E, como veremos, isso acabou envolvendo não dinheiro, mas dinheiro apropriado (da mesma forma que a atitude anticomida deu lugar à comida adequada e o antissexo deu lugar ao sexo apropriado). O desgosto com o dinheiro era primária e profundamente um desgosto com a manifestação, um ódio ao samsara e um desejo de não “sujar” a si mesmo com o reino grosseiro: tudo o que a orientação não dual entenderia como sendo completa e profundamente confusa.

Agora, tanto quanto as tradições não duais trouxeram uma revolução na relação com o samsara (sexo, comida, dinheiro, corpo, terra e mulheres), ainda assim estas tradições ainda surgiram em uma base agrária, e elas permaneceram, em muitos aspectos, imersas na ética e na moral do que ainda representava, em muitos aspectos, um antigo clube de meninos. A revolução decisiva para as mulheres ocorreria não no Oriente, mas no Ocidente, e não dependeria de certo idealismo, mas da máquina a vapor.

A orientação não dual com a base pós-industrial

A industrialização, apesar de todos os seus horrores e todos os seus desagradáveis ​​efeitos secundários, era antes de mais nada um meio tecnológico de assegurar a subsistência, não do músculo humano trabalhando na natureza, mas do poder da máquina trabalhando na natureza. Enquanto as sociedades agrárias exigiam trabalho humano físico para a subsistência (lavoura), essas sociedades inevitavelmente valorizavam a força física e a mobilidade masculinas. Nenhuma sociedade agrária conhecida tem algo que se assemelhe vagamente aos direitos das mulheres.

(Esse é um ponto tangencial, mas importante e relacionado; não quero que isso desvie a narrativa principal, mas, pelo menos, notemos que, exatamente pela mesma razão, 80% das sociedades agrárias, onde quer que aparecessem, dependiam do trabalho escravo do sexo masculino; a escravidão foi assumida como a maneira normal, natural e ética de garantir o trabalho para a própria sobrevivência; as primeiras “democracias” gregas nem mesmo questionam isso, mesmo que uma em cada três pessoas fossem de fato escravas; a Constituição americana, escrita apenas no despertar da industrialização e, ainda, em grande parte um documento agrário, simplesmente supõe que a escravidão é tão natural que nem precisa ser mencionada ou discutida: não precisa explicar que “nós, as pessoas” não inclui escravos ou mulheres.

Mas dentro de um século de industrialização — que removeu a ênfase na força física masculina (e escravidão) e a substituiu por motores de gênero neutro — o movimento de mulheres (e movimentos antiescravistas) surgiram pela primeira vez na história (em qualquer tipo de grande escala): esses movimentos de libertação foram todos unidos pelo fato de que a força física masculina não era mais o principal determinante do poder cultural.

Assim, a Reivindicação dos Direitos da Mulher, de Mary Wollstonecraft, foi escrita em 1792; é o primeiro grande tratado feminista em toda a história. Não é que, de repente, as mulheres tenham se tornado inteligentes, fortes e determinadas após um milhão de anos de opressão, engano e teimosia: é que as estruturas sociais evoluíram, pela primeira vez na história, até um ponto em que a força física não determinou esmagadoramente o poder na cultura. Em poucos séculos — um piscar de olhos no tempo evolutivo — as mulheres haviam garantido para si os direitos legais de propriedade, voto e “serem elas próprias, pessoas”, isto é, serem donas de si mesmas.

(E igualmente, o bispo William Wilberforce, em uma campanha forjada com seu amigo de longa data, William Pitt, encabeçou um movimento que resultou, em 1807, na abolição do tráfico de escravos no império britânico. Nos Estados Unidos, uma guerra aconteceu em parte porque os motivos antiescravagistas trariam isoladamente mais homens às batalhas do que os que foram perdidos em todo o Vietnã — 48.000 mortos em três dias em Gettysburg; o Presidente da época lembraria ao mundo, em um endereço nobre naquele local, e em apenas 253 palavras, que esta batalha foi travada porque a Nação foi “dedicada à proposição de que todos os homens são criados iguais”, uma proposição desprezada pela natureza e por todas as sociedades embutidas nela: uma proposição desprezada por todas as sociedades agrárias. “Todos os homens” seriam expandidos para “todos os humanos” — homens, mulheres, escravos — e democracias genuínas emergiriam pela primeira vez na história.)

“Vamos levar o Dharma, chutando e gritando, para o mundo moderno e pós-moderno, somente quando cada uma dessas “anti” posturas (dinheiro, comida, sexo, corpo, terra, mulher) for atacada simultaneamente: elas ficam de pé juntas ou caem juntas.” Ken Wilber

Aqui, então, houve uma revolução (e uma série de movimentos de libertação) da qual o oriente ainda agrário não participou — e certamente não participou do movimento da mulher e da verdadeira libertação política feminina. E assim, apesar de todas as ênfases não tântricas e tântricas sobre o “Feminino” e a “Deusa”, as mulheres nessas sociedades ainda estavam relegadas à esfera privada e reprodutiva (eu não sou o único que se maravilhou com as sociedades que elogiam a Deusa Tântrica e o Feminino — como a Índia o Tibete — e que ainda não têm virtualmente nenhuma mulher em posições de poder ou influência pública, o que não pode acontecer em uma base agrária: o culto ao “feminino” permanece um pouco serviçal, porque a base [agrária] não pode sustentar uma visão “bonita” de outra forma).

Unir Oriente e Ocidente neste ponto da história significa, portanto, mais do que qualquer outra coisa, unir o extraordinário avanço representado pela orientação não dual — que valoriza igualmente Ascendente e Descendente, Sabedoria e Compaixão, Vazio e Forma, Eros e Ágape, Masculino e Feminino, Céu e Terra — para unir essa orientação com uma base tecno-econômica (industrial benigna e especialmente pós-industrial), que é a única base que pode permitir a manifestação dessa orientação não dual.

Simplificando, significa unir a orientação não dual com a base pós-industrial. Isto é, a orientação não dualista com uma base sem preconceito de gênero. Isto seria, no melhor sentido, uma visão tântrica não dual, não apenas na visão e teoria, mas de fato e, certamente, na verdadeira manifestação.

E tudo isso significa uma amizade completa com dinheiro, comida, sexo e mulheres, nenhuma das quais está significativamente presente nos meros Caminhos Ascendentes. (Ao mesmo tempo, não queremos ir ao outro extremo; muitos movimentos de espiritualidade das mulheres acabam sendo um caminho meramente descendente, enfatizando nada além do corpo e da biosfera e ágape e da compaixão — sem uma pista sobre o real Eros e transcendência e vacuidade — e assim acabam eternamente emulando e desfilando uma série de sentimentos intermináveis, personalistas e egóicos, preferencialmente em uma noite de lua cheia, como se isso fosse uma libertação).

Uma amizade completa com o samsara, como a expressão perfeita de um Espírito onipresente: esta é a revolução não dualista; e situá-lo numa base tecno-econômica que lhe permita manifestar-se: esse é o grande projeto da pós-modernidade. Essa união não aconteceu (e não pôde) acontecer antes da industrialização; e à medida que nos movemos cuidadosamente para a pós-industrialização, corrigindo o máximo possível dos excessos e dos efeitos colaterais prejudiciais da superindustrialização, temos a oportunidade, pela primeira vez na história, de iniciar uma orientação genuinamente não dual para o mundo (não apenas na teoria, mas na realidade).

Dinheiro e espiritualidade

E o truque, é claro, então centra-se não numa abstinência forçada e num julgamento condescendente sobre dinheiro, comida e sexo, mas no uso apropriado e funcional dessas relações como uma expressão apropriada e funcional do Vazio, como uma manifestação apropriada do próprio divino.

Nesta equação difícil, podemos errar em qualquer um dos dois extremos. O primeiro, é claro, é o erro ascendente padrão: todos os aspectos do samsara são maus e devem ser desinfetados com nojo (não tocar!: Dinheiro, comida, sexo, terra, corpo, mulheres). Mas o outro extremo (o meramente Descendente) é igualmente sedutor: um tipo de excesso de indulgência nos desejos e impulsos pessoais sob o disfarce de que “tudo é Espírito” — um tipo de dharma hippie, beat zen, autoindulgência que confunde folia egóica com transcendência egóica.

Como os indivíduos (e professores) decidem lidar com essa delicada equação (integrar Ascendente e Descendente no Coração não dual), vou deixar para uma análise posterior (isso é de fato um tópico totalmente diferente). Meu ponto aqui é que nós ainda vemos uma extraordinária ambivalência, e culpa, e nojo, com a ideia de que o Dharma e o dinheiro jamais deveriam se cruzar.

E isso é profundamente confuso. O certo é, se algumas pessoas não puderem pagar para assistir a uma aula de Dharma, então precisamos fazer todos os esforços para arrecadar fundos para esses indivíduos. Mas essa é uma outra questão e que, no fundo, não é de forma alguma diferente de quaisquer outros bens e serviços: acho que a maioria das pessoas pensa que devemos disponibilizar serviços médicos básicos às pessoas, independentemente de sua capacidade de pagar. Assim, devemos tornar o Dharma disponível para as pessoas, independentemente da capacidade de pagar.

Mas isso não é o que incomoda tantas pessoas (e tantos professores de Dharma). Em vez disso, eles tendem a sentir que, mesmo que as pessoas possam pagar, elas não deveriam ter que pagar. Que o Dharma está “acima de tudo isso”, que o Dharma não deve se sujar com o dinheiro imundo. Em outras palavras, que o Dharma deveria se apresentar completamente enojado com o reino grosseiro. Então, essa “pureza” do Dharma está além de tudo isso.

Mas isso é pura tolice agrária, ascendente, anti-este-mundo. Em sua pretensão à pureza, esconde um desgosto com a manifestação. Em sua pretensão à liberdade, oculta uma escravização a um outro mundo que não toca as realidades básicas da existência neste mundo. Em sua alegação de clareza moral, esconde um julgamento moral de que o samsara está podre até o centro.

Lucro imundo. Não toque no reino grosseiro. Com os olhos sempre voltados para cima, vamos transcender apenas; não iremos nos envolver, com cuidado e compaixão, nas trocas relacionais que definem este mundo: relações de comida, de sexo e de dinheiro.

E vamos apontar para os nossos ideais, para os sábios agrários que recusaram o troca monetária (e, de fato, a condenaram). Estamos usando os padrões éticos apropriados à estrutura agrária para um mundo pós-moderno onde eles não se aplicam nem mesmo vagamente. Toda a estrutura agrária apoiava iogues e mendigos com esmolas e doações — eles não precisavam se preocupar com dinheiro, com um lugar para morar, com pagar impostos — e é muito fácil condenar algo que, de qualquer maneira, lhe é livremente dado.

Tudo isso, no mundo pós-moderno, cria e reforça uma hipocrisia viciosa. Uma vez que indivíduos e professores precisam arrecadar dinheiro para sobreviver, mas como o dinheiro é mau, com a consciência dilacerada pela culpa, vamos arrecadar dinheiro; mas chamamos de outra coisa (doações “livres”). Vamos continuar apontando que Ramana não aceitou dinheiro (ele era apoiado por devotos, é claro); o Dalai Lama não aceita dinheiro (ele só tem um pequeno país inteiro apoiando-o). E que deus proíba algum professor de ser encontrado dirigindo uma BMW: o diabo, sem dúvida, o levou a fazer isso.

E pior: a mensagem que sai do Dharma não é sobre como ser responsável pelo dinheiro de uma forma apropriada, e sim sobre como evitar essa responsabilidade. O Dharma puro não toca dinheiro, portanto os praticantes puros não devem se preocupar com dinheiro. O que significa que um bom praticante deve estar rigorosa, exaustiva e totalmente desalinhado com a realidade.

Ninguém gosta de ver a espiritualidade abusada pela exorbitante cobiça monetária e apego — como o Jimmy Swaggart ou Oral Roberts (ou Rajneesh, etc.) sugando dólares entre os desavisados. Mas o oposto do dinheiro ganancioso não é dinheiro, é dinheiro justo, da maneira apropriada. A lista Ascendente tem que ser emendada e complementada: comida apropriada, sexo apropriado, dinheiro apropriado.

Minha opinião, na verdade, é até pessoalmente mais forte. Acredito que esse dharma hippie (lucro imundo) realmente deprecia o Dharma. Ele transmite a mensagem de que o Dharma não tem a menor ideia de como fazer isso no mundo real. Transmite o absurdo da antiga visão ascendente de que Dharma é igual a puritanismo, morto do pescoço para baixo. Transmite a mensagem de que o Dharma não pode tocar em dinheiro sem se sujar. E isso é o mais barato do barato.

Um Dharma acessível

Como eu disse, acredito que todo esforço pragmático deve ser feito para tornar o Dharma acessível a qualquer pessoa, independentemente da capacidade de pagamento (voltarei a isso em breve). Mas isso é completamente diferente da postura que diz que o Dharma nunca deveria ser reembolsado por seus esforços.

Em outras palavras, essas duas questões são inteiramente separadas — disponibilizar o Dharma para aqueles que não podem pagar, e a noção de que o Dharma não deve ser pago de forma alguma. O primeiro é louvável, nobre e honrado; o último é patético, retardado, regressivo e obsceno. E um Dharma com nojo do domínio grosseiro: Isso não é Dharma livre, isso é Dharma barato, aleijado por sua incapacidade de abraçar o domínio grosseiro com cuidado, interesse e inteligência.

O dinheiro é a força da troca relacional no domínio grosseiro. É o modo inteiramente apropriado de permitir que bens e serviços se movam no reino denso. E um Dharma que inclui (e não despreza) o domínio grosseiro, é um Dharma que opera com dinheiro de forma apropriada e, portanto, um Dharma que se move para o mundo moderno e pós-moderno, sem essa glamurização insana, agrária, sexista, ascendente, puritana, com uma postura antiterra, anticorpo, antimulher: e acredite em mim, é um pacote total.

Então, a questão difícil se modifica, não é mais se Dharma e dólares devem cruzar caminhos (é claro que deveriam), mas sim, como podemos tornar o Dharma disponível para aqueles que não podem pagar por isso?

E aqui a questão se reverte para uma questão muito mais prosaica e comum: como fazemos isso em qualquer domínio e com quaisquer bens ou serviços? Não há absolutamente nada de especial sobre o Dharma a considerar. Como chegamos a uma troca equitativa em qualquer evento?

Por exemplo, ganhei dinheiro na faculdade com tutoria. Eu não conseguia decidir por um preço fixo, porque alguns estudantes eram incrivelmente ricos e alguns muito pobres. Então eu cobrava, por hora, o que eles ganhavam em uma hora (ou um valor equivalente; com o filho de um médico, eu cobrava o que o médico ganhava em uma hora). Isso significava que eu tinha alunos que pagavam US$ 3,75 por hora (salário mínimo na época) e alguns que pagavam cerca de cem dólares por hora (com o que, estranhamente, eles não pareciam se importar).

Em nenhum momento me ocorreu fazer isso absolutamente de graça, em função de algum tipo de princípio (porque esse é um princípio tolo; e completamente diferente de fazê-lo de graça, ou virtualmente de graça, pela razão pragmática de que eles não podem pagar por isso).

Esse tipo de escala móvel, é claro, é frequentemente usada em escritórios de advocacia, em estabelecimentos médicos, em psicoterapia e em serviços sociais, e eu pessoalmente gosto muito dela. Infelizmente é um tanto difícil aplicá-la a seminários e retiros e eventos similares de Dharma, porque o trabalho com livros é muito complexo, mas pode haver várias áreas no ensino do Dharma em que isso pode ser aplicado de forma criativa.

Da mesma forma, existem vários tipos de atividades que podem ser organizadas com um diferencial monetário. Por exemplo, alguns professores podem dar palestras gratuitas, abertas a qualquer um e a todos, e então os alunos interessados ​​podem se inscrever para sessões individuais especiais ou retiros em grupo, com uma taxa monetária (isso de novo pode ser organizado em uma escala móvel ou não, dependendo das circunstâncias; e as bolsas de estudos podem sempre ser disponibilizadas para praticantes sinceros, mas desfavorecidos, não porque o Dharma não deva tocar em dinheiro, mas porque faz concessões felizes aos menos afortunados).

Mas supostamente o Dharma “livre” (como uma questão de “pureza”), ou seja, Dharma barato, envia a mensagem inconfundível de que o Dharma é inútil, e que você também pode se tornar inútil se praticar bastante. Ele envia a mensagem de que o Dharma não assume nenhuma responsabilidade madura pela troca relacional no nível grosseiro, e que você também pode se tornar totalmente irresponsável se você se aplicar diligentemente. Ele envia a mensagem inconfundível de que “libertação” e “incompetência grosseira” são idênticas.

E, pior de tudo, cria uma atmosfera difusa de hipocrisia; como a troca relacional grosseira é inevitável em qualquer caso, então o dinheiro deve ser levantado de outras fontes e chamado por outros nomes; uma constante distribuição de beijos aos ricos patrocinadores; humilhantes pedidos de esmolas para um Dharma “puro” que não se suja com o lucro imundo; degradação dos professores e do ensinamento por uma “pureza” que esconde seu rosto de vergonha das exigências do mundo real; que dá as costas à humilhação dos rigores da franqueza financeira; e chama tudo isso dissimuladamente “livre” e “puro”.

Existem professores talentosos de Dharma que têm mais de 20 anos de experiência e sabedoria — e que, ao ensinar, economizam para seus alunos enormes despesas com tempo e dinheiro (e sofrimento) — e eles ainda rangem os dentes, vestindo sua camiseta rasgada enquanto, constrangidos, pedem 5 dólares para cobrir as despesas.

Isso não é transcendência, é um puritanismo lamentável e cheio de culpa. O vazio não aliviará você, eu ou qualquer outra pessoa da necessidade da troca relacional apropriada no mundo manifesto. Tornar-se menos apegado ao dinheiro não significa simplesmente ter menos dinheiro. Menos apego não significa “não tocar” [no dinheiro]. Significa elegantemente tocar e não apertar até a morte. Significa tocar com as mãos abertas, e não cortar as mãos.

Eu mesmo fui pobre a maior parte da minha vida adulta (fui lavador de pratos e ajudante de garçom e frentista num posto de gasolina, por quase uma década), até meus livros começarem a fazer dinheiro (bem mais tarde), e então Treya me deixou um pouco de petróleo e poços de gás no Texas. Então agora não tenho que me preocupar muito com dinheiro. Mas meus pontos de vista sobre este assunto não eram diferentes do que são agora: dinheiro e Dharma não são incompatíveis, a troca monetária é uma manifestação funcional e totalmente apropriada do Divino na vida cotidiana, assim como a comida apropriada e a sexualidade apropriada.

E quanto à visão desdenhosa — lucro imundo — garanto-lhe que, por razões estruturais, essa visão está indevidamente ligada a uma postura anticorpo, antiterra, antiecológica, antissexo, antimulher: em todos os sentidos, um acordo conjunto (eles historicamente surgiram juntos e só vão cair juntos: estão ligados por estruturas ocultas de troca relacional).

E levaremos o Dharma, chutando e gritando, para o mundo moderno e pós-moderno somente quando cada uma dessas “anti” posturas (dinheiro, comida, sexo, corpo, terra, mulher) forem abordadas simultaneamente: elas permanecem juntas ou caem juntas.

É hora de terminar com este Dharma a baixo custo; hora de parar de anunciar que o Dharma é inútil; hora de parar de sugerir que um bom praticante não tem nem um centavo ou nenhuma ideia [sobre dinheiro]; tempo para cessar este abuso infantil espiritual. Tempo, preferencialmente, para entrar no reino manifesto da troca relacional apropriada e funcional — de dinheiro, comida, sexo, corpo, terra — e descobrir, como Plotino disse, que esta terra e todos os seus bens se tornam um ser abençoado, que santifica cada e todo evento, tocando-o com graça, não desinfetando-o com nojo.

Publicado originalmente em https://integrallife.com/right-bucks/
Tradução e adaptação: Paulo C. S. Passini

Revisão: Jorge Watanabe

 

 

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