Em sua mais recente publicação, “Trump and a Post-Truth World”, Ken Wilber usa como pano de fundo a eleição presidencial norte-americana para analisar o momento atual da humanidade.

Na sua visão, a eleição de Donald Trump pode ser compreendida como uma autocorreção evolutiva, uma reação ao fracasso dos movimentos de vanguarda da consciência (Pós-Modernismo e Pluralismo) em reconhecer as mentiras subjacentes ao progresso que buscam: eles não são igualitários, não são coerentes, e não tem espaço para todos. Mas uma nova força integral que emerge poderia agora ir além do narcisismo e niilismo para avançar rumo a um desenvolvimento de maior plenitude.

O conteúdo foi disponibilizado na íntegra no site Integral Life e é apresentado em três partes: Uma Visão Global, O Território e O Futuro Imediato. Confira trechos da Parte I, com tradução de Ari Raynsford:

“No cômputo geral, a resposta à recente eleição de Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos tem sido radical, visceral e extremamente ruidosa, em ambos os lados. Os adeptos de Trump têm sido frequentemente desagradáveis e mesquinhos em sua atitude triunfal, dizendo “Eu avisei!” e “Bem feito!”, regozijando-se com a inesperada, mas, acham eles, totalmente justa e legítima vitória. O lado anti-Trump tem sido, se isto é possível, ainda mais ruidoso, com as pessoas em lágrimas contando como vomitaram, gritaram, passaram seguidas noites insones, tudo menos desistir da democracia e de qualquer tipo de idealismo (muitas prometeram deixar o país se Trump ganhasse), achando sua eleição uma vitória do ódio, do racismo, do sexismo, da xenofobia e de extremo mau gosto – para, em seguida, em geral, jurar continuar “a luta” e exortar seus concidadãos a aliar-se a elas e nunca desistir.

Ambos os lados, na minha opinião, estão presos a visões muito estreitas. Há um quadro maior operando aqui, e eu gostaria de esboçar qual poderia ser. Eu nunca ouvi esse ponto de vista que irei descrever ser expresso por alguém, mas acredito que ele represente uma visão mais ampla e mais integral, e como tal, possa ser bastante esclarecedor – e libertador. A dor e o sofrimento que os dois lados sentem são, creio eu, resultado da identificação com uma visão muito limitada, e uma postura mais expansível oferece um alívio genuíno – ao mesmo tempo que permite que se trabalhe em qualquer lado desejado.

De vez em quando, à luz de novas informações sobre como seu caminho está se desdobrando, a evolução tem de ajustar o rumo, e começa (aparentemente de forma espontânea, mas com um campo mórfico mais profundo realmente operando), a fazer vários movimentos que são, na verdade, realinhamentos evolucionários autocorrigíveis. A vanguarda da evolução cultural é hoje – e tem sido por quatro ou cinco décadas – a onda verde (“Verde” significa o estágio básico de desenvolvimento humano a que vários modelos de desenvolvimento se referem como pluralista, pós-moderno, relativista, individualista, de autorrealização inicial, de vínculos humanos, multicultural, etc. – e genericamente conhecido como “pós-moderno”). O principal objetivo da vanguarda da evolução é apenas esse: ser a VANGUARDA do desdobramento evolutivo, o que Maslow chamou de uma “extremidade crescente” – ela procura (isto é, parte do seu contexto de seleção recompensa a descoberta de) áreas que são as formas mais apropriadas, mais complexas, mais inclusivas e mais conscientes possíveis naquele momento e ponto de evolução específicos (em termos Integrais, a forma que melhor se ajusta ao desdobramento em curso da matriz AQAL em todos os seus elementos).

No início da década de 1960, o Verde começou a emergir como uma grande força cultural e logo ultrapassou o Laranja (que era o estágio de liderança anterior, conhecido em vários modelos como moderno, racional, razão, operacional formal, conquista, realização, mérito, lucro, progresso, consciencioso) como a vanguarda dominante. Ele começou com uma série de formas saudáveis e muito apropriadas (e evolucionariamente positivas) – o movimento maciço de direitos civis, o movimento ambiental mundial, a ascensão do feminismo pessoal e profissional, o crime de ódio, uma maior sensibilidade a todas as formas de opressão social de praticamente qualquer minoria e, centralmente, a compreensão do papel crucial do “contexto” em qualquer afirmação de conhecimento e o desejo de ser o mais “inclusivo” possível. Toda a revolução dos anos 60 foi impulsionada, principalmente, por esse estágio de desenvolvimento (em 1959, 3% da população estava no Verde, em 1979, perto de 20% da população) e esses eventos realmente mudaram o mundo irrevogavelmente. Os Beatles (considerados sacrossantos em minha opinião) resumiam o movimento inteiro (e suas ações) em uma de suas canções: “All you need is love” (inclusão total é o quente!).”

O texto completo pode ser encontrado em inglês, aqui, e sua tradução para o português, por Ari Raynsford, aqui.

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