A medida que a sociedade se desenvolve e as organizações tornam-se cada vez mais complexas, modelos de gestão mais avançados são necessários para lidar com os seus intrincados desafios. No limiar de uma era integral, como as organizações deveriam ser vistas pelas lideranças e como poderia ser o modelo de gestão pelas quais operariam?

Este artigo fornece uma visão geral da evolução das visões de mundo associadas aos negócios, até a descrição dos negócios por um olhar integral. Em seguida, propõe uma estrutura integral para os negócios – um Meta Modelo Integral de Gestão – que pode ser adotado por líderes, gerentes, empresários e consultores que desejam implementar uma gestão mais abrangente e mais profunda para o seu negócio.

Visões de mundo, visões de negócios

Os modelos de gestão desenvolvidos e adotados pelas organizações estão intrinsicamente relacionados à visões de mundo compartilhadas pela sociedade e como estas organizações são aderentes (ou adaptadas) às bases tecnoeconômicas predominantes em uma determinada época.

Estas visões de mundo determinam tanto a forma como os negócios são administrados e liderados, como também os valores que orientam as suas estratégias e o propósito com que servem à sociedade. A visão de mundo orientadora de uma determinada organização, portanto, quanto mais aderente aos valores do macroambiente social e econômico da época, em tese, possuem maior facilidade para associar pessoas (como colaboradores, parceiros, consumidores, etc.) e promover interfaces favoráveis à sua existência e prosperidade.

Num rápido retrospecto, os negócios como conhecemos hoje têm como marco de nascimento a revolução industrial que iniciou-se no século XVIII. Já o marco para a administração profissional de empresas, ocorreu no início do século XX, tendo como precursores Frederick W. Taylor nos EUA e Henri Fayol na Europa.

Estes marcos correspondem, em termos de visão de mundo, à emergência e o estabelecimento da altitude de nível de consciência ‘laranja’ em uma sociedade urbana predominantemente ‘âmbar’ (isto é, do v.meme azul para o v.meme laranja, da Espiral DinâmicaTM de Graves e Beck). O que nos leva a associar normalmente toda e qualquer manifestação relacionada aos negócios como oriundas da mentalidade laranja. Porém, sabemos que, assim como as visões de mundo estão estruturadas em camadas de níveis de consciência de crescente complexidade, e que o nível de consciência laranja só emerge à partir da base que se inicia no infra vermelho (v.meme bege), passando pelo magenta (v.meme púrpura), vermelho (v. meme vermelho) e âmbar (v.meme azul); podemos também retroceder na história e perceber que muitas manifestações econômicas e sociais de pre-modernidade, permeiam ainda hoje as organizações modernas e pós-modernas, por mais avançados que possam ser os seus processos.

Embora a razão de ser dos negócios se legitimam ou fundamentam a partir do laranja, eles continuaram a se desenvolver além do laranja, na medida que a própria sociedade abriu caminho para visões de mundo mais avançadas. Atualmente, vivemos sob crescente influencia do nível de consciência verde (v.Meme Verde), que começou a proliferar em meados dos anos 60.

Já foi percebida a tendência, nos níveis de primeira camada de consciência[i], de renegar ou questionar preferencialmente o nível de consciência imediatamente anterior ao seu, postura justificada em parte pela necessidade de se desidentificar deste nível para poder evoluir. O impacto geral da emergência do nível verde levou ao questionamento contundente do nível laranja, e por associação, os negócios têm recebido a sua parcela de críticas e profundos questionamentos; que são legitimados pelas evidências cada vez mais contundentes do impacto global que todo o legado da modernidade e pre-modernidade têm causado na sociedade global e meio ambiente.

No entanto, como o nível verde ainda é um nível de primeira camada, uma visão de mundo plana (flatland), suas críticas aos negócios tendem a ser indiscriminadas; por não perceber as sutilezas e diferenciações de níveis, tais críticas tendem a atribuir ao laranja as patologias de todos os outros níveis, como o protecionismo e a exclusão do magenta, o oportunismo, escravidão e a exploração do vermelho, a rigidez hierárquica e controle do âmbar, e assim por diante.

Porém, o nível verde também trouxe importantes contribuições para os negócios: o conceito de sustentabilidade (Triple Bottom Line), os negócios sociais, a flexibilização das relações de trabalho, a responsabilidade social e a valorização da qualidade de vida no ambiente de trabalho são exemplos do enorme bem que o nível verde promove, abrindo perspectivas para um futuro mais saudável e benéfico para os negócios e a sociedade.

Um fenômeno curioso que pode ser observado atualmente é a tendência da cultura organizacional predominantemente laranja apropriar-se de aspectos da crescente influência do nível verde na sociedade, emulando os seus valores. Muitas organizações operam a partir das bem conhecidas premissas básicas do nível laranja na administração de negócios, acrescentando tímidas estratégias verdes suplementares, como por exemplo, a criação de departamentos de Responsabilidade Social à margem do core business da organização, ou  práticas de recursos humanos voltadas a melhoria do ambiente de trabalho como ‘great place to work‘ (os melhores lugares para se trabalhar). Um verniz verde na superfície de uma estrutura laranja, que não representa um avanço significativo nas práticas de gestão.

Cabe destacar, porém, as manifestações consistentes de práticas do verde saudável, tanto na gestão de negócios, como também em novos modelos socioeconômicos e de cultura. A profissionalização das ONGs, a emergência de negócios sociais, inclusivos e de valor compartilhado; conceitos como o Impact Investment, Capitalismo 2.5, Slow Money, e o crescente aumento do compromisso com a sustentabilidade, destacando empresas como Whole Foods, Natura, Patagonia, Timberland, Interface, entre outros.

Ainda que pluralista e sensível, a visão de mundo verde sustenta uma identidade baseada na crença de um ‘eu separado’. A liderança verde idealiza as organizações como organismos vivos dotados de um ‘eu unificado’ que emerge a partir dos colaboradores e processos que estão ‘do lado de dentro’ e que interagem com pessoas e outras organizações que estão ‘do lado de fora’. As organizações parecendo-se com indivíduos gigantes que funcionam (ou não) harmonicamente, a partir de células (os colaboradores) orquestradas em órgãos (departamentos) que administram seus processos vitais.

A inconsistência desta metáfora reside principalmente no entendimento que, em um organismo vivo, as células operam o tempo todo dentro do corpo, em função do corpo e para o corpo, ao passo que uma organização é composta por indivíduos com grande grau de autonomia (mesmo que algumas vezes não a exerçam) em relação à organização – podem se desligar, trabalhar em outras organizações ou dar outros rumos para a sua carreira. As pessoas não vivem 24 horas por dia nas organizações e não vivem em função delas; e este fato implica em enormes distinções entre a organização e o comportamento de um negócio, este muito mais complexo do que o funcionamento de um organismo vivo. Esta visão impacta diretamente na tendência para a perda de flexibilidade, na crescente tensão provocada pelo abafamento de conflitos e no engessamento de processos e produtividade devido a ideia subjacente de que a organização deve construir suas decisões a partir de consensos absolutos que revelem os seus valores.

[i] ´Primeira Camada’ é a expressão usada para resumir os seis principais níveis de Desenvolvimento de Valores de acordo com Clare Daves e a Espiral Dinâmica: Sentido de Sobrevivência, Espíritos Parentais, Deuses Poderosos, Força da Verdade, Esforço Dirigido e Vínculo Humano. Os estágios da primeira camada são caracterizados pela crença de que ‘meus valores são os únicos valores corretos’. Isto contrasta-se com os níveis de segunda camada de desenvolvimento, em que os indivíduos reconhecem a importância de todos os sistemas de Valores. A Teoria Integral usa o termo primeira camada para se referir aos seis primeiros estágios ou níveis de altitude de desenvolvimento em qualquer linha (Infravermelho, Magenta, Vermelho, Âmbar, Laranja e Verde).  

Confira o artigo completo aqui.

Originalmente publicado no “Journal of Integral Theory and Practice“, edição JUN/2013

Um modelo de gestão para organizações de segunda camada

por Marcelo Cardoso e Ricardo Ferrer
Artigo publicado no “Journal of Integral Theory and Practice

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