Resumo: O ser humano tende a transformar sua natureza e seu nível de consciência continuamente, à medida que as condições de existência mudam. Cada estágio de existência representa em um sistema psicossocial, resultado da interação entre as forças sócio-ambientais e o equipamento neuropsicológico humano apropriado. Em cada nível de existência, o indivíduo tem um mundo particular. Suas motivações, sistema de aprendizagem, preferências e forma de se relacionar com o mundo são apropriadas ao estágio em que vive e, simultaneamente, limitadas a ele. As pesquisas desenvolvidas têm demonstrado que, ao longo da vida, os indivíduos percebem que seus Sistemas de Valores mudam de estágios Egocêntricos e Etnocêntricos para níveis Globocêntricos. Palavras Chaves: Estágios de Consciência, Sistemas de Valores

Introdução: “A evolução se desenrola na direção de uma crescente complexidade, que é acompanhada por uma correspondente elevação do nível de consciência.” Teilhard de Chardin

Segundo Ken Wilber, no estudo da consciência humana, é possível encontrar diversas linhas ou perspectivas particulares de desenvolvimento. Segundo ele, Piaget seguiu a linha cognitiva, Kohlberg a moral, Loevinger o desenvolvimento do ego, Graves, o desenvolvimento de valores e Maslow o desenvolvimento das necessidades. Todas essas linhas de desenvolvimento contêm estágios ou níveis diferentes descritos por meio de símbolos, nomes ou ambos.

Não se trata simplesmente de idéias conceituais ou teorias interessantes, mas de estudos fundamentados numa quantidade considerável de evidências cuidadosamente averiguadas. Muitos dos modelos de estágios foram meticulosamente estudados em países de primeiro, segundo e terceiro mundos. O mesmo vale para o modelo de Graves, aplicado em mais de cinqüenta mil pessoas ao redor do mundo, que não apresentou exceções relevantes dentro do esquema geral. (WILBER, 2003, p.18) 

Dentro da perspectiva do desenvolvimento da consciência por meio do Sistema de Valores, os indivíduos passam dos níveis Egocêntricos, nos quais lutam apenas pelos próprios direitos e interesses, sem se importar com as demais pessoas, para os níveis Etnocêntricos, nos quais os indivíduos lutam apenas pelos direitos e interesses de um grupo particular, alienando-se dos demais, até chegar ao nível Globocêntrico, estágios de consciência nos quais os indivíduos lutam por direitos e interesses globais, e não apenas individuais ou de grupos específicos.

A Teoria da Emergência Cíclica 

Para Clare Graves, autor da Teoria da Emergência Cíclica que deu origem ao modelo da Espiral Dinâmica, o ser humano adulto vive num sistema potencialmente aberto de necessidades, valores e aspirações, com uma ativação neurológica apropriada a cada nível de existência. Quando se encontra centrado em um determinado nível de existência, o indivíduo possuiu um modelo particular de mundo e age limitado às condições neuropsicológicas correspondentes a esse estágio. Emoções, ética, valores, bioquímica, estado de ativação neurológico, motivações, sistema de aprendizagem, preferências por tipo de educação, são todos apropriados a esse nível. Se novas condições de vida e novas necessidades surgirem e esse indivíduo se movimentar para outro nível, ele viverá outro conjunto de princípios psico-orgânicos e reagirá negativamente à forma que estava anteriormente acostumado. “Uma pessoa madura pode mudar sua psicologia continuamente à medida que mudam as condições de vida, e pode passar por vários estágios de existência sempre em busca de outros estados de equilíbrio”. (GRAVES, 2005, p.29). Dessa forma, a cada estágio, certos sistemas de valores gerariam respostas mais positivas à educação, à administração e às escolhas correspondentes àquele estado particular, assim como provocariam rejeição às formas não apropriadas àquele estado de existência no qual o indivíduo se encontra centrado.

A Teoria da Emergência Cíclica preconiza também que cada onda da existência “transcende e inclui”, isto é, cada onda vai além de sua precedente e a assimila a onda anterior em sua própria estrutura. Cada uma delas é um componente fundamental para todas as ondas subseqüentes.

[…] a psicologia do ser humano maduro é um processo espiralizante, emergente, oscilatório, marcado pela subordinação progressiva dos sistemas de comportamento mais antigos, de ordem mais baixa, a sistemas mais novos, de ordem mais elevada, à medida que os problemas existenciais do homem se modificam, e se tornam mais complexos. (BECK & COWAN 2000, p. 41). ​

A Formação dos Níveis de Existências e Estágios de Consciência

Segundo as pesquisas de Graves o desenvolvimento do sistema psicossocial é resultado da interação de dois tipos de forças determinantes. A primeira delas foi denominada Problemas da Vida e é representada pelas forças sócio-ambientais e os problemas de existência das espécies, grupos e indivíduos. O segundo grupo foi denominado Sistema Humano e é representado pelo equipamento neuropsicológico das espécies, grupos ou indivíduos.

Esses dois grupos foram representados em 12 conjuntos de estágios divididos em dois grandes níveis distintos.

Para representar o primeiro grande nível dos doze estágios de Problemas da Vida, foram escolhidas as letras do alfabeto A, B, C, D, E e F. Para identificar os seis conjuntos do segundo nível de Problemas da Vida, foram escolhidas as mesmas letras acrescidas de um apóstrofe.

Para representar o sistema humano no seu primeiro nível, Graves utilizou as letras N, O, P, Q, R, S, pertencentes à segunda metade do alfabeto. Da mesma forma, para identificar o segundo nível de sistemas humanos de ordem mais elevada, foram escolhidas as mesmas letras acrescidas de um apóstrofe. Para a representação final da Teoria, foram somados a esse conjunto de forças determinantes do sistema humano os subsistemas neuroquímicos X, Y, Z, definidos respectivamente como ativador, apoiador e elaborador do sistema humano, inspirados no trabalho de David Krech.

Por Marco Antonio Camacho de Figueiredo*

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